Eu não aguentava mais...

Eu não queria necessariamente deixar de existir, queria que aquela vida acabasse. Eu não aguentava mais viver daquele jeito e não conseguia enxergar uma saída.

Elis era muito jovem quando começou a pensar que morrer poderia ser a única maneira de fazer o sofrimento parar. Hoje, quando olha para trás, consegue enxergar uma jovem desesperada, presa em uma realidade que parecia não ter fim. Naquela época ela não conseguia enxergar o futuro. 

Quando eu achei que minha vida tinha acabado

“Para mim, a minha vida tinha acabado antes mesmo de realmente começar. Entre os 19 e 21 anos, tentei tirar a minha própria vida cerca de três vezes.

Quando penso naquela jovem, uma das coisas que mais me impressionam é perceber que ela não fazia ideia da vida que ainda viveria. Naquele momento, eu realmente acreditava que não existia saída. A dor ocupava todo o espaço e eu não conseguia imaginar que as coisas poderiam ser diferentes.”

Eu me sentia muito sozinha

“Me casei no civil aos 19 anos. Éramos muito jovens e o relacionamento se tornou turbulento, marcado por agressões verbais e físicas.

Durante muito tempo, vivi aquela realidade praticamente em silêncio. Minha família não sabia tudo o que acontecia dentro da minha casa. Por fora, a vida continuava. Por dentro, eu sentia como se estivesse vivendo um pesadelo.

Existe um tipo de sofrimento que vai diminuindo o tamanho do mundo ao nosso redor. Aos poucos, parece que não existem mais possibilidades, caminhos ou futuro. Existe apenas aquela dor.

Eu era muito jovem e não conseguia imaginar como sair daquela situação. Em vez de conseguir pensar em maneiras de mudar a minha vida, comecei a acreditar que talvez a única forma de fazer o sofrimento acabar fosse acabar com a própria vida.

Quando a morte começou a parecer uma saída

“Durante muitos anos, quase ninguém soube disso. Eu carregava aquela parte da minha história praticamente em silêncio. Não foi fácil olhar para quem eu era e lembrar do tamanho do desespero que sentia.

Eu não queria simplesmente morrer, eu só não aguentava mais.

Não aguentava mais aquela vida, aquele relacionamento, aquela sensação de estar presa e sem saber como tudo aquilo poderia mudar.

Quando estamos mergulhados em sofrimento, nossa visão pode ficar tão estreita que começamos a acreditar que aquilo que estamos vivendo agora será a nossa vida para sempre.

Hoje eu sei que não era verdade.

“Olhava para a minha vida e não conseguia enxergar um amanhã diferente. Estava tentando decidir o fim da minha história quando ainda conhecia apenas algumas páginas dela.”

Uma vida chegou quando eu queria desistir da minha

Foi naquele tempo que descobri que estava grávida. A chegada da minha filha, marcou profundamente a minha história. Sua gestação e seu nascimento colocaram diante dos meus olhos algo que eu já não conseguia enxergar: futuro.

Agora havia alguém por quem eu precisava lutar.

Com o tempo, entendi que não precisava lutar apenas por ela. Eu também precisava lutar por mim.

Decidi cuidar da minha filha e cuidar de mim. Pedi a separação e enfrentei um processo litigioso que durou cerca de dois anos. Sair daquela situação não foi simples. Minha vida não mudou de uma hora para outra. Mas, foi um caminho.

Aos poucos, deixei de ser uma pessoa que não acreditava no futuro e comecei a construir um.

A vida que eu não conseguia enxergar

Os anos passaram e criei minha filha, construí uma carreira, tornei-me jornalista e escritora, construí um novo relacionamento saudável, conheci pessoas, fui a lugares que nunca imaginei conhecer e realizei sonhos que aquela jovem de 20 anos sequer sabia que poderia ter.

Existe algo que mexe profundamente comigo quando penso nisso. Quando tentei morrer, eu estava tomando uma decisão sobre um futuro que não conhecia.

Eu não sabia quem ainda encontraria. Não sabia quem me amaria. Não sabia o trabalho que faria. Não sabia das oportunidades que teria. Não sabia dos momentos simples que ainda me fariam feliz.

Eu simplesmente não conseguia enxergar nada disso daquele lugar de sofrimento.

Por isso, se você chegou até este texto porque também não consegue imaginar um amanhã diferente, eu gostaria que soubesse de uma coisa:

não conseguir enxergar uma saída não significa que ela não exista.

Eu sou uma prova disso.

Mas minha história ainda teria outra parte que eu também não conseguia prever.

Quando a escuridão voltou

Muitos anos depois, eu adoeci com depressão e dessa vez, minha vida era completamente diferente. Eu tinha uma família que amava, uma profissão, projetos, amigos e muitos motivos pelos quais poderia dizer que minha vida era boa.

E mesmo assim eu estava profundamente deprimida.

Essa foi uma das coisas mais difíceis de compreender. Como alguém pode ter motivos para viver e, ainda assim, não conseguir sentir vontade de continuar?

A depressão me ensinou, da maneira mais difícil, que saber racionalmente que existem coisas boas na nossa vida não significa necessariamente conseguir senti-las quando estamos doentes. Eu sei que não era ingratidão da minha parte, mas, ainda assim, estava triste, doente e precisando de ajuda.

Eu precisei aprender a pedir ajuda

Além do apoio de pessoas com muita fé, do meu marido e da minha filha, procurei acompanhamento psiquiátrico e comecei um caminho de tratamento.

Houve pessoas fundamentais nesse processo. Meu médico foi uma delas e também minha família .

Não foi um passe de mágica. Não acordei certa manhã completamente bem, como se os meses ou anos anteriores nunca tivessem existido. A recuperação aconteceu em passos.

Também precisei aprender que quando estamos no meio de uma crise, precisamos falar sobre isso, que não está bem e reconhecer meus limites. Precisava aceitar o cuidado e permitir que outras pessoas soubessem o que estava acontecendo dentro de mim. Hoje sei que esconder o sofrimento não me tornava mais forte, mas, me deixava mais sozinha. 

“Pedir ajuda não resolveu tudo de uma vez. Mas fez com que eu não precisasse continuar tentando resolver tudo sozinha.”

Quando os pensamentos voltaram

Mesmo depois de tudo o que vivi, em momentos de depressão profunda os pensamentos sobre morrer voltaram e isso me assustou bastante.

Eu conhecia minha história e sabia tudo o que havia superado até ali. Entendia racionalmente que havia muita coisa pela qual viver. E foi justamente por já conhecer esse caminho que precisei entender que não poderia guardar aqueles pensamentos apenas para mim.

Quando percebi que não estava segura, eu falei e me permiti receber ajuda. 

Aprendi uma coisa que hoje considero fundamental: uma crise não é o momento de tentar resolver a vida inteira. Primeiro, precisamos atravessar aquele momento em segurança.

“Aprendi que não preciso acreditar em tudo o que a dor me diz quando estou no meu pior momento.”

Não fique sozinho com isso

Pode ser que exista uma diferença enorme entre a minha história e a sua. Eu não sei o que aconteceu para você chegar até esta página.

Não sei se existe um relacionamento difícil, uma perda, uma doença, problemas financeiros, solidão, depressão ou simplesmente um cansaço tão profundo que você já nem consegue explicar de onde vem.

Não posso dizer exatamente como você se sente, mas conheço esse lugar em que a dor parece ocupar todo o horizonte, porque já estive nele mais de uma vez.

Por isso, existe algo que eu gostaria muito que você fizesse antes de tomar qualquer decisão sobre a sua vida: conte para alguém. Mande uma mensagem, ligue, mas, faça algo. 

Você não precisa organizar primeiro o que está sentindo ou encontrar as palavras perfeitas. Você pode simplesmente dizer: “Eu não estou bem e estou com medo do que posso fazer comigo.”

Além disso, procure ajuda profissional. Se você sente que pode tentar tirar algo contra você, não fique sozinho. Vá para perto de alguém em quem confia e procure atendimento de emergência. Deixe alguém atravessar este momento com você.

Ainda existem páginas que você não leu

Se eu pudesse voltar no tempo e sentar ao lado daquela jovem de 20 anos, eu não tentaria explicar tudo o que aconteceria depois, inclusive, acho que ela nem acreditaria.

Eu apenas diria: “Fica. Você ainda não viu tudo.”

Sei que parece não ter saída, mas tem! 

Isso não significa que tudo será fácil ou que amanhã todos os seus problemas terão desaparecido. Significa apenas que você não precisa tomar uma decisão definitiva enquanto está vivendo um momento de dor extrema.

Eu estive em lugares em que não conseguia imaginar minha vida depois daquele sofrimento e hoje estou aqui para contar que houve um depois. Mais de uma vez.

“Eu fiquei. E havia muito mais vida me esperando do que eu conseguia enxergar.”

Um conselho da Elis

“Se hoje você não consegue encontrar uma razão para continuar, não enfrente isso sozinho. Conte para alguém exatamente como você está. Procure ajuda profissional e fique perto de alguém em quem confia. Você não precisa resolver a sua vida inteira hoje. Precisa atravessar este momento em segurança. Eu já acreditei que não existia um depois. Existia. E espero que você permaneça para conhecer o seu. Um dia de cada vez.”